Polícia
ROTAS ÁEREA|Drones usados por criminosos entram no radar da aviação e expõem risco nas rotas de helicópteros em Jacarepaguá
Equipamentos adaptados para transportar explosivos foram identificados em área próxima ao Aeroporto de Jacarepaguá; pilotos apontam possibilidade de conflito com trajetórias utilizadas por aeronaves durante aproximações e decolagens
O uso de drones por criminosos para transportar e lançar explosivos deixou de ser apenas uma nova modalidade de ataque em disputas territoriais no Rio de Janeiro e passou a representar também um problema de segurança aérea.
Um dos episódios identificados na Zona Oeste colocou equipamentos controlados por criminosos em uma área utilizada por aeronaves que chegam e saem do Aeroporto de Jacarepaguá, conhecido pela sigla SBJR. A preocupação aumentou depois que pilotos analisaram o trajeto de um drone utilizado em um ataque na comunidade Dois Irmãos, em Curicica, e identificaram que a trajetória atravessou uma região compatível com o circuito visual de aeronaves que operam no aeroporto.
O caso chama atenção porque ocorre justamente em uma das regiões mais movimentadas da Zona Oeste e envolve um tipo de equipamento que pode ser pequeno, de difícil detecção visual e operado remotamente.
A ameaça, portanto, deixa de estar restrita ao solo.
Drone usado em ataque percorreu área próxima à circulação de aeronaves
Imagens relacionadas ao ataque mostram um criminoso preparando um drone para transportar uma granada. O equipamento foi empregado contra rivais e, após a explosão, estilhaços atingiram a perna de um homem.
A análise das imagens também permitiu identificar coordenadas associadas ao local de operação do equipamento. O ponto indicado ficaria nas proximidades da Gardênia Azul, em Jacarepaguá, a cerca de 2,5 quilômetros do local onde ocorreu o ataque. A informação sobre o episódio foi divulgada em reportagem publicada em 19 de agosto.
O aspecto mais preocupante, porém, surgiu quando pilotos compararam a trajetória do drone com as rotas utilizadas por aeronaves na região.
A análise indicou que o equipamento cruzou um corredor visual utilizado durante procedimentos de aproximação do Aeroporto de Jacarepaguá.
Não significa, necessariamente, que tenha ocorrido uma aproximação entre o drone e um helicóptero ou avião no mesmo instante. O alerta está no fato de que o mesmo espaço pode ser utilizado por aeronaves tripuladas em operações de chegada e saída, criando a possibilidade de uma situação de risco caso os voos ocorram simultaneamente.
Por que pousos e decolagens são momentos críticos
A preocupação dos pilotos não está relacionada apenas à possibilidade de uma colisão.
As fases de aproximação, pouso e decolagem são particularmente sensíveis porque as aeronaves estão realizando mudanças de altitude, velocidade e direção e precisam seguir trajetórias previamente definidas.
Em um cenário de tráfego visual, um objeto não previsto no caminho pode exigir uma reação imediata do piloto.
Um drone convencional já seria capaz de provocar uma situação perigosa dependendo de seu tamanho, velocidade, altitude e posição. Quando o equipamento é utilizado deliberadamente para transportar uma carga explosiva, o potencial de dano aumenta de maneira significativa.
Uma eventual colisão poderia provocar danos à aeronave e, dependendo das circunstâncias, comprometer a segurança dos ocupantes e de pessoas no solo.
Jacarepaguá possui regras específicas de circulação aérea
O Aeroporto de Jacarepaguá opera dentro de uma estrutura de circulação aérea que possui procedimentos específicos publicados pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA).
A carta de aproximação visual do aeroporto identifica a pista 03/21 e estabelece procedimentos para aeronaves que circulam na região. O documento determina, por exemplo, que aeronaves que pretendam operar dentro da Área de Tráfego de Jacarepaguá devem entrar em contato com a torre do aeroporto antes do ingresso na área. Também existem trajetórias, altitudes mínimas e setores específicos para chegadas e partidas.
Isso ajuda a explicar a dimensão do alerta feito pelos pilotos.
O problema não é simplesmente um drone voando perto de um aeroporto. É a possibilidade de um equipamento controlado por criminosos ocupar, de forma não autorizada e imprevisível, uma região na qual aeronaves tripuladas seguem procedimentos de circulação.
Drone não é apenas um brinquedo quando entra no espaço aéreo
A regulamentação brasileira trata as aeronaves não tripuladas como equipamentos sujeitos a regras específicas de segurança.
As normas atuais da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) estabelecem, entre outras condições, limites de altitude, requisitos relacionados à distância de terceiros e responsabilidades para os operadores. A regulamentação também determina que operações em aeródromos dependem de autorização do administrador do aeroporto e podem estar sujeitas a restrições específicas.
A ANAC também estabelece que o piloto remoto é diretamente responsável pela condução segura da aeronave e pelas consequências decorrentes da operação.
No caso de equipamentos utilizados por criminosos, evidentemente, não se trata de uma operação regular de drone.
O cenário é ainda mais grave porque o equipamento estaria sendo deliberadamente adaptado para transportar um artefato explosivo e utilizado em uma ação criminosa.
Uma nova dimensão da guerra entre grupos criminosos
O uso de drones para ataques representa uma mudança importante na dinâmica da violência urbana.
Durante décadas, disputas territoriais no Rio estiveram associadas principalmente ao emprego de armas de fogo, veículos, barricadas e outros recursos utilizados por grupos criminosos.
A incorporação de drones adiciona uma dimensão aérea ao conflito.
O equipamento permite que um operador permaneça distante do ponto onde o ataque acontece. Isso cria novas dificuldades para a identificação de quem controla o dispositivo e amplia as possibilidades de emprego da tecnologia.
No episódio de Curicica, segundo as informações divulgadas, o operador estava a aproximadamente 2,5 quilômetros do ponto atingido.
Essa distância demonstra uma das características que tornam a tecnologia particularmente preocupante para as forças de segurança: o responsável pelo ataque não precisa estar fisicamente no local onde o explosivo é lançado.
O problema ultrapassa a segurança pública
A proximidade com o Aeroporto de Jacarepaguá muda a natureza do problema.
Se um drone utilizado em uma disputa entre criminosos entra em uma área de circulação de aeronaves, uma ação que inicialmente tinha como alvo pessoas em solo pode criar riscos para terceiros que não possuem qualquer relação com o conflito.
Nesse caso, passageiros, pilotos, trabalhadores do aeroporto e moradores da região podem ficar expostos a uma ameaça completamente diferente.
É por isso que a identificação da trajetória do equipamento por pilotos ganha importância.
A análise transforma um episódio isolado de violência em um alerta sobre a necessidade de avaliar como os drones estão sendo utilizados no entorno dos aeroportos e quais mecanismos existem para detectar operações não autorizadas.
A dificuldade de detectar equipamentos pequenos
Um dos obstáculos para as autoridades é justamente o tamanho dos drones.
Dependendo do modelo, o equipamento pode ser difícil de identificar visualmente a distância. Isso reduz o tempo disponível para que pilotos e operadores adotem alguma medida de segurança.
Além disso, um drone pode alterar rapidamente sua trajetória, o que torna especialmente complexa a previsão de seu comportamento quando não existe um operador identificado ou comunicação com o controle de tráfego aéreo.
A presença de um drone em área de circulação aérea pode exigir uma resposta coordenada entre diferentes estruturas: controle do espaço aéreo, administração aeroportuária e forças de segurança.
O risco não se limita ao Aeroporto de Jacarepaguá
O caso também levanta uma preocupação mais ampla sobre o entorno de outros aeroportos e helipontos do Rio de Janeiro.
A cidade possui uma grande quantidade de operações de helicópteros, inclusive em regiões densamente povoadas. Muitas dessas aeronaves realizam voos em baixa altitude, seguindo referências visuais e trajetórias que podem passar sobre áreas urbanas.
Isso cria um cenário no qual a utilização criminosa de drones pode gerar conflitos não apenas com aviões comerciais, mas também com helicópteros de transporte, segurança pública, resgate e outros serviços.
O desafio para as autoridades passa a ser identificar não somente onde drones estão sendo utilizados, mas quais áreas apresentam maior probabilidade de conflito entre voos não tripulados e aeronaves tripuladas.
Regras existem, mas o problema é a operação clandestina
A regulamentação brasileira estabelece que operações de drones devem respeitar as regras do espaço aéreo e as normas aplicáveis da ANAC e do DECEA.
A própria ANAC deixa claro que suas regras devem ser observadas em conjunto com as regulamentações do DECEA e de outras autoridades.
O problema enfrentado agora pelas autoridades é outro: criminosos não estão utilizando drones dentro de uma atividade regular que possa ser simplesmente fiscalizada por meio de cadastro ou autorização.
Trata-se de uma utilização clandestina e deliberadamente perigosa.
Por isso, a discussão tende a avançar para mecanismos de detecção, identificação e resposta a drones não autorizados, especialmente em áreas próximas a aeroportos e corredores utilizados pela aviação.
Um alerta que pode mudar os protocolos de segurança
O episódio de Curicica mostra como a tecnologia pode criar uma ameaça que atravessa diferentes áreas da segurança pública.
O drone foi utilizado, inicialmente, como instrumento de um ataque entre criminosos. Mas sua trajetória revelou um possível risco para a aviação.
Esse tipo de ocorrência pode levar autoridades aeroportuárias e órgãos de controle do espaço aéreo a reforçarem o monitoramento das áreas próximas ao aeroporto e a analisarem com maior atenção relatos de drones em rotas utilizadas por aeronaves.
A preocupação dos pilotos também ganha peso porque a identificação do risco ocorreu a partir da comparação entre o trajeto do equipamento e os procedimentos de circulação aérea publicados para Jacarepaguá.
O caso expõe, portanto, um novo desafio para a segurança do Rio: a violência praticada por grupos criminosos começa a incorporar tecnologias capazes de interferir diretamente no espaço aéreo controlado e na segurança de quem está voando.
Enquanto um drone usado para filmagem irregular pode representar uma infração e um risco operacional, um equipamento adaptado para transportar explosivos representa uma ameaça de natureza completamente diferente.
E o fato de um desses equipamentos ter sido identificado em uma área compatível com rotas utilizadas por helicópteros faz o alerta ganhar uma dimensão que vai muito além da disputa territorial entre criminosos. Por podcast edinhotaon/ Edno Mariano
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