Brasil
Um turismo educativo com José Pacheco em Massarandupio
Neste feriado, tive a alegria de compartilhar uma experiência profundamente humana, educativa e transformadora nas terras ancestrais dos povos indígenas Massarandupió, no litoral norte da Bahia. Estava acompanhado de minha esposa, Maressa, do grande educador José Pacheco, de sua companheira, Alma, e da filha dela, Emile. Mais do que uma viagem, vivenciamos uma verdadeira aula em movimento, atravessada por encontros, afetos, saberes e reflexões sobre a vida, a educação e as possibilidades de construção de um novo mundo.
Ao longo do percurso, Pacheco nos provocava amorosamente a repensar os fundamentos da educação e a imaginar novas formas de organização social da aprendizagem. “A escola não é um prédio, são pessoas, e ela acontece em qualquer lugar”, dizia ele. Suas palavras nos convidavam a compreender que a educação não se limita aos muros escolares, tampouco à transmissão de conteúdos. A aprendizagem ganha sentido quando se conecta à vida, ao território e à comunidade, reconhecendo a criatividade, a autonomia, os interesses e o protagonismo de cada estudante em sua integralidade: corpo, intelecto, emoções, cultura e espiritualidade.
Em nossas conversas, Pacheco também recuperava o pensamento de grandes educadores, especialmente de Agostinho da Silva, filósofo e humanista luso-brasileiro ainda pouco conhecido em muitos espaços de formação pedagógica. Para Agostinho, educar é criar condições para que o ser humano desenvolva plenamente suas potencialidades, experimentando, investigando e criando com liberdade. Nessa perspectiva, a educação não deve servir à simples adaptação dos indivíduos às exigências da sociedade, mas à formação de pessoas livres, conscientes e capazes de transformar a realidade.
Ao chegarmos àquela terra sagrada, marcada pela presença ancestral e pela força de suas comunidades, iniciamos nossa caminhada pela comunidade da Mata, onde construímos diálogos generosos com moradores e visitantes. Percorremos trilhas pelo Ecoparque, pela Ecovila e pela Vila da Mata, permitindo-nos sentir a vitalidade da Mata Atlântica, sua beleza e sua espiritualidade pulsante. Entre árvores, caminhos e encontros, a natureza também se revelava educadora, lembrando-nos de que somos parte de uma grande teia misteriosa de relações que sustenta a vida.
Seguimos para um almoço na Vila de Massarandupió, na companhia de educadoras e educadores, prolongando as conversas e os aprendizados. Depois, fomos à praia receber as bênçãos de Iemanjá, num encontro de gratidão com o mar, com a natureza e com as forças sagradas que habitam nossas tradições culturais.
No dia seguinte, começamos a manhã com um acolhedor café na casa de Lira, onde conversamos sobre educação, turismo e a profunda crise civilizacional que atravessa nosso tempo. A boa prosa continuou no Ecoparque, em diálogo com Gobi Bore, liderança da comunidade da Mata. Mais uma vez, percebemos que os saberes mais significativos emergem da escuta sensível, da convivência e do reconhecimento das experiências humanas.
Em seguida, fomos recebidos no Quilombo de Massarandupió, onde saboreamos uma feijoada singular, preparada com afeto e tradição. Ali, tivemos o privilégio de ouvir Damião, liderança quilombola, compartilhar histórias de luta, fé e resistência de sua comunidade. Suas narrativas reafirmaram que o território é também memória, identidade e ancestralidade. Cada história contada nos convidava a compreender que educar é também reconhecer as vozes historicamente silenciadas e valorizar os saberes daqueles que seguem resistindo e reinventando a existência.
Encerramos nosso percurso de turismo de base comunitária na casa de Rose, no Quilombo do Limoeiro, onde fomos presenteados com deliciosos quitutes, acolhimento generoso, boas conversas e muitas risadas. Na simplicidade e na beleza daquele encontro, experimentamos uma das maiores riquezas da vida: a alegria de estar juntos, compartilhar histórias e reconhecer a humanidade que nos une.
Foi um feriado memorável, marcado por um turismo de semeadura, educativo, repleto de afeto, espiritualidade e sentido. Uma experiência genuína que reafirmou minha convicção de que a educação acontece onde há encontro, diálogo, beleza e curiosidade, somente assim cultivamos respeito e abertura para aprender com o outro.
Entre trilhas, comunidades, quilombos, conversas e abraços, trocamos muitas vezes a roupa da alma. E talvez seja justamente essa uma das maiores potências da educação e do turismo de base comunitária: permitir que cada experiência nos ajude a descobrir novas maneiras de ser, sentir e habitar o mundo.
Voltamos para casa com a certeza de que as viagens mais bonitas não são aquelas que apenas nos levam a outros lugares, mas aquelas que nos fazem regressar diferentes, mais humanos, mais conscientes e mais comprometidos com a vida.
Por Tássio Cardoso.
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