Brasil
MERCADO FINANCEIRO|Americanas registra prejuízo de R$ 274 milhões no 2º trimestre e ainda busca recuperar rentabilidade
Cinco meses depois de solicitar à Justiça o encerramento de sua recuperação judicial, a Americanas ainda enfrenta um dos principais desafios da reestruturação iniciada após a crise contábil revelada em 2023: voltar a apresentar resultados consistentes e transformar a melhora operacional em lucro. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 274 milhões, conforme balanço divulgado na noite desta quarta-feira (12).
O resultado representa uma redução das perdas em relação ao primeiro trimestre, quando a varejista havia registrado prejuízo de R$ 329 milhões. Na comparação com o mesmo período de 2025, entretanto, houve forte deterioração: o prejuízo praticamente triplicou, passando de R$ 98 milhões para R$ 274 milhões, uma alta de 179,6%.
A diferença entre a melhora trimestral e a piora anual mostra o tamanho do desafio enfrentado pela companhia. Embora a Americanas consiga reduzir parte das perdas em relação ao início de 2026, ainda não conseguiu recuperar plenamente a capacidade de gerar lucro que existia antes da crise.
A receita líquida foi de R$ 3,3 bilhões, queda de 1,7% na comparação anual. As vendas nas mesmas lojas, indicador utilizado pelo varejo para medir o desempenho das unidades que já estavam abertas há mais de um ano, recuaram 0,6%.
Resultado operacional também perde força
Outro ponto de atenção no balanço foi o desempenho operacional. O Ebitda, indicador que permite avaliar a geração de resultado da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização, ficou em aproximadamente R$ 145 milhões no segundo trimestre.
O número representa uma queda superior a 50% em relação aos R$ 299 milhões registrados no mesmo período de 2025. Isso significa que, mesmo antes dos efeitos financeiros e contábeis que impactam o lucro líquido, a operação apresentou uma geração de resultado menor.
A companhia, porém, destaca que a análise do desempenho precisa considerar os efeitos sazonais do período. O calendário da Páscoa, por exemplo, teve influência relevante sobre a comparação entre os trimestres, já que parte das vendas relacionadas à data foi antecipada para os primeiros meses do ano.
Ainda assim, os números mostram que a recuperação da Americanas não será medida apenas pela redução do prejuízo. O desafio central é fazer com que as lojas, o comércio digital e as demais operações consigam gerar resultados suficientes para sustentar a companhia no longo prazo.
Recuperação judicial entra em nova fase
O balanço ocorre em um momento especialmente importante para a empresa. Em 25 de março de 2026, a Americanas protocolou na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro um pedido para encerrar sua recuperação judicial, alegando ter cumprido as obrigações previstas no plano dentro dos prazos estabelecidos.
O pedido, no entanto, não representa o fim automático do processo. A saída depende de decisão judicial. Além disso, credores apresentaram questionamentos à Justiça sobre supostas falhas no cumprimento de determinadas obrigações, o que acrescentou um novo obstáculo ao encerramento da recuperação judicial.
A recuperação judicial começou em janeiro de 2023, depois que a empresa revelou inconsistências contábeis que chegaram a R$ 25,3 bilhões. Naquele momento, as dívidas declaradas pela companhia alcançavam aproximadamente R$ 43 bilhões, transformando o caso em um dos maiores processos de reestruturação empresarial da história brasileira.
Desde então, a Americanas passou por uma profunda redução de sua estrutura. Mais de 400 lojas foram fechadas e cerca de 19 mil funcionários deixaram a empresa no processo de enxugamento das operações.
Venda de ativos ajudou na reestruturação
Uma das estratégias utilizadas pela companhia para reorganizar sua estrutura financeira foi a venda de ativos. Em março, a empresa anunciou a alienação da Uni.Co, subsidiária que reunia marcas como Imaginarium e Puket, em uma operação que fez parte do processo de reorganização previsto no plano de recuperação judicial.
A companhia também realizou outras operações de venda de ativos ao longo de 2026. A estratégia busca concentrar recursos e esforços nas atividades consideradas mais importantes para o futuro da varejista.
O objetivo, portanto, não é simplesmente voltar ao tamanho que a Americanas tinha antes da crise, mas construir uma empresa menor e financeiramente mais disciplinada.
Dívida e geração de caixa continuam no radar
Apesar dos avanços na reestruturação, os números mais recentes mostram que a situação financeira ainda exige atenção. Segundo os dados divulgados no balanço, a dívida bruta chegou a aproximadamente R$ 2,2 bilhões, enquanto a dívida líquida ficou em torno de R$ 1 bilhão. A companhia também registrou consumo de caixa nas operações durante o período.
Esse cenário ajuda a explicar por que o retorno ao lucro ainda é uma etapa fundamental. Uma empresa pode apresentar melhora operacional e, mesmo assim, continuar registrando prejuízo quando os custos financeiros, despesas e outros efeitos sobre o resultado são considerados.
No caso da Americanas, a reconstrução financeira precisa caminhar junto com a recuperação da capacidade de vendas e da eficiência operacional.
Estratégia mira integração entre lojas físicas e digital
A administração da companhia afirma que a empresa entrou em um “novo ciclo estratégico”, com foco em disciplina financeira e no fortalecimento da operação.
A estratégia apresentada pela Americanas prevê uma maior integração entre os canais físico e digital, além da concentração em categorias consideradas estratégicas para o consumo. No primeiro semestre, a empresa informou avanços em determinados segmentos e crescimento no uso de serviços digitais e do programa de fidelidade.
A companhia também afirma que indicadores operacionais apresentaram melhora quando analisados em períodos mais longos e ajustados aos efeitos sazonais. No semestre, por exemplo, as vendas em lojas com mais de 12 meses apresentaram crescimento de 9,3%, segundo os dados divulgados pela empresa.
O desafio agora é transformar recuperação em lucro
O balanço do segundo trimestre deixa uma mensagem ambígua para o mercado. De um lado, a Americanas conseguiu reduzir o prejuízo em relação aos três primeiros meses do ano e afirma estar avançando na reorganização de sua estrutura. De outro, o resultado anual mostra que a companhia ainda está distante de uma recuperação completa.
A diferença entre os R$ 98 milhões de prejuízo no segundo trimestre de 2025 e os R$ 274 milhões registrados agora evidencia que a volta à rentabilidade ainda não aconteceu. Ao mesmo tempo, a queda do Ebitda mostra que o problema não está restrito às despesas financeiras: a própria operação apresentou perda de força no período.
Para a empresa, o próximo passo será provar que a reestruturação financeira pode ser acompanhada por uma recuperação sustentável das vendas, das margens e da geração de caixa.
Depois de mais de três anos marcados por crise contábil, recuperação judicial, redução de lojas, venda de ativos e mudanças na estrutura financeira, a Americanas entra em uma etapa decisiva. O encerramento da recuperação judicial, caso seja autorizado pela Justiça, poderá representar o fim de um capítulo importante, mas não significará que os problemas ficaram para trás.
A verdadeira recuperação da varejista será medida pela capacidade de voltar a crescer, gerar caixa e, principalmente, transformar sua operação em lucro de forma sustentável. Por podcast edinhotaon/ Edno Mariano
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