Brasil
15 anos após redescoberta, acervo do Cais do Valongo com 1,5 milhão de peças ainda revela a história do Rio
Arqueólogos seguem analisando a gigantesca quantidade de objetos encontrados na Região Portuária, que ajudam a reconstruir o cotidiano da cidade e as raízes africanas nos séculos XVIII e XIX.
Quinze anos após a histórica redescoberta do Cais do Valongo, um acervo monumental escondido sob a Região Portuária do Rio de Janeiro continua a surpreender pesquisadores. Considerado o principal ponto de chegada de africanos escravizados nas Américas, o local recebeu mais de 1 milhão de pessoas trazidas à força para o Brasil entre os séculos XVIII e XIX. As escavações das obras de revitalização do projeto Porto Maravilha não apenas trouxeram à luz as pedras do antigo porto, mas também resgataram cerca de 1,5 milhão de objetos que são peças fundamentais para montar o quebra-cabeça da história carioca.
A preservação do material e o raio-x das escavações
Para garantir a segurança e o estudo contínuo desse tesouro histórico, todo o material resgatado está guardado e meticulosamente catalogado no Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana. O espaço funciona no Armazém Docas André Rebouças, estrategicamente posicionado em frente ao próprio cais, e foi criado para atender a uma exigência da Unesco quando o local foi elevado ao título de Patrimônio Mundial.
A dimensão do achado impressiona e exige um trabalho de longo prazo. Veja os números que detalham o acervo:
- Volume total: Cerca de 1,5 milhão de objetos foram encontrados durante as escavações na região.
- Ligação direta: Aproximadamente 500 mil itens estão ligados de forma direta à história do Cais do Valongo.
- Trabalho pela frente: Cerca de 60% de todo o material resgatado ainda precisa passar por estudos mais aprofundados.
De âncoras a amuletos: o cotidiano revelado
A variedade dos itens encontrados é um retrato fiel da vida na cidade séculos atrás. Entre os achados de grande porte, destacam-se âncoras e canhões de navios. Já os objetos menores detalham a rotina doméstica e pessoal, incluindo sapatos, garrafas, utensílios, brinquedos e ossos de animais. Mais do que itens de uso comum, as escavações revelaram a resistência das práticas culturais africanas preservadas pelas pessoas escravizadas, evidenciada na descoberta de búzios, contas e pequenos artefatos ligados à religiosidade.
A pesquisa ativa nesse acervo já rendeu descobertas curiosas e fascinantes. Um exemplo marcante foi o achado de uma garrafa inglesa de graxa. A peça levou os arqueólogos a investigarem anúncios em jornais do século XIX, descobrindo que o produto era vendido em uma loja da Rua do Ouvidor no ano de 1826.
Atualmente, o laboratório opera com uma equipe de seis profissionais dedicados e está de portas abertas para receber pesquisadores. O público em geral também pode se conectar com essa história viva, observando o minucioso trabalho dos arqueólogos através de janelas de vidro instaladas no espaço, garantindo que os fragmentos da vida na região portuária durante o período da escravidão continuem sendo revelados e jamais esquecidos.por podcast edinhotaon/ Edno Mariano
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