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O combate à violência contra mulheres também pode começar na escolinha de futebol

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Com agressões 28,8% maiores em dias de jogos, atividades em campo com crianças e famílias ensinam a lidar com raiva, frustração e conflitos sem recorrer à violência

Antes de aprender a chutar, passar ou marcar, uma criança também pode aprender no futebol a lidar com a raiva, aceitar um “não” e resolver conflitos sem usar a força.

Em escolas de futebol, o campo também pode se transformar em espaço de prevenção da violência. Atividades com alunos, pais e responsáveis trabalham emoções, afeto, respeito e comunicação. O objetivo é formar crianças que conheçam alternativas à agressão e levar esse aprendizado para dentro de casa.

A proposta ganha ainda mais importância diante de um dado preocupante: os registros de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica contra mulheres aumentam 28,8% nos dias em que há jogos de futebol. As ocorrências de ameaça crescem 27,4%. Entre meninas e mulheres de 15 a 29 anos, o aumento fica em torno de 44% nos dois tipos de violência.

Os números fazem parte da segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher” divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em agosto de 2026.

A pesquisa analisou mais de 308 mil registros policiais feitos entre 2023 e 2025 em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Os dados foram cruzados com partidas de clubes dessas cidades pelo Campeonato Brasileiro, pela Libertadores e pela Copa Sul-Americana. O levantamento considerou jogos realizados dentro e fora de casa. O modelo estatístico também controlou fatores como dia da semana, mês, ano, chuva e temperatura.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados não permitem afirmar que o futebol seja a causa da violência. O que o estudo identifica é uma associação consistente entre os dias de partidas e o crescimento dos registros.

Nesse contexto, o jogo pode funcionar como um catalisador de tensões e comportamentos violentos que já existem. A rivalidade, a cobrança pelo resultado e certas ideias de força e masculinidade podem ampliar conflitos que acabam atravessando a porta de casa.

Um problema cada vez mais grave

Os índices atuais são superiores aos encontrados na primeira edição do levantamento, publicada em 2022 com dados de 2015 a 2018. Naquele período, os registros de ameaça contra mulheres aumentavam 23,7% nos dias de partidas. Os casos de lesão corporal cresciam 20,8%. Agora, as altas chegaram a 27,4% nas ameaças e 28,8% nas agressões físicas. Isso representa um avanço de 3,7 pontos percentuais no primeiro indicador e de oito pontos percentuais no segundo.

A mudança mais preocupante está na forma como essa violência aparece. Na edição anterior, as ameaças registravam a maior variação. No novo levantamento, as lesões corporais passaram a liderar o aumento proporcional. O problema não está restrito aos clássicos ou às decisões de campeonato. Em todos os dias da semana analisados, a quantidade de ameaças contra mulheres foi maior quando algum time da cidade estava em campo.

Dentro das residências, o modelo apontou aumento de 35,1% nas agressões e de 26,8% nas ameaças em dias de jogos. Entre as mulheres de 15 a 29 anos, a alta das ameaças dentro de casa chegou a 47,3%. O cenário faz parte de uma realidade ainda maior. De acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou mais de 280 mil boletins de ocorrência por lesão corporal decorrente de violência doméstica em 2025. Também foram quase 790 mil registros de ameaça contra mulheres e 1.571 vítimas de feminicídio.

O futebol também pode fazer parte da resposta

Ao expor a relação entre o calendário esportivo e a violência doméstica, o estudo aponta que o futebol precisa participar da prevenção. O relatório recomenda que clubes, federações, torcidas e poder público promovam ações permanentes sobre violência contra a mulher e padrões de masculinidade. Também propõe programas de desenvolvimento socioemocional para jovens torcedores e a formação contínua de atletas.

Outras medidas sugeridas são a criação de postos de acolhimento e denúncia nos estádios, o reforço da rede de proteção nos dias de partidas e a adoção de protocolos para casos de violência doméstica envolvendo jogadores. Nas escolas de futebol, o trabalho pode começar ainda na infância.

Na Ronaldo Academy, ligada ao ex-jogador Ronaldo Nazário, crianças e familiares participam de atividades voltadas ao fortalecimento de vínculos, à comunicação e à resolução de conflitos. “Não basta dizer para um menino ‘não seja agressivo’. Precisamos ensinar o que ele pode fazer no lugar da agressão”, afirma Roberto Joaquim, CEO da Ronaldo Academy.

Segundo ele, o trabalho psicossocial é realizado por meio de experiências práticas. Em uma das atividades, pais e filhos permanecem abraçados durante 40 segundos. Em outra, ficam frente a frente, olhando nos olhos um do outro, enquanto trocam elogios e reconhecem qualidades.

“Parece algo extremamente simples, mas quantas famílias passam dias sem parar, olhar uma para a outra e ter um momento verdadeiro de conexão?”, questiona Joaquim. As dinâmicas também acontecem entre os próprios alunos durante as aulas. A proposta é mostrar que controlar uma atitude negativa representa apenas uma parte do aprendizado. A criança precisa conhecer outras formas de comunicar o que sente.

“Como ele comunica a raiva? Como lida com uma frustração? Como reage quando alguém diz não? Como demonstra carinho? Como pede desculpas? Como reconhece o outro? Como resolve um conflito sem usar força ou violência? Isso também se aprende”, diz.

Aprender a perder sem agredir

Raiva e frustração fazem parte do futebol. Uma derrota, um erro, uma substituição ou uma decisão do árbitro colocam crianças e adultos diante de emoções difíceis. Esses momentos também podem servir como aprendizado. O campo oferece situações reais nas quais o aluno precisa respeitar regras, reconhecer limites, trabalhar em equipe e continuar jogando mesmo quando o resultado não é o esperado.

Para Joaquim, a escola de futebol pode aproveitar essas experiências para ensinar como lidar com sentimentos negativos sem transformá-los em agressão.

“Uma criança que aprende a olhar nos olhos, reconhecer o outro, expressar afeto, receber um elogio, elogiar, respeitar e falar sobre suas emoções está desenvolvendo ferramentas para lidar melhor com seus conflitos”, afirma.

O CEO destaca que o objetivo não é falar apenas sobre o comportamento que deve ser evitado. É preciso apresentar caminhos para substituí-lo.

Em vez de somente dizer que a criança não deve bater ou gritar, o trabalho busca ensiná-la a conversar sobre a raiva, pedir desculpas, escutar o outro e reagir de maneira diferente quando for contrariada.

Da escolinha para dentro de casa

O envolvimento das famílias é uma parte importante dessa proposta. A formação não termina quando o treino acaba. Ao aproximar pais e filhos, as atividades criam momentos de conversa e demonstração de afeto que nem sempre acontecem espontaneamente no ambiente familiar.

“Talvez esteja aí uma das maiores oportunidades que uma escola de futebol possui: não impactar somente a criança que está dentro do campo, mas também a família que está do lado de fora”, afirma Joaquim.

Segundo ele, uma criança emocionalmente mais preparada pode influenciar a própria casa. Da mesma forma, um pai levado a refletir sobre o próprio comportamento pode mudar a maneira como se relaciona com o filho e com outras pessoas.

A iniciativa não substitui políticas públicas, medidas protetivas, atendimento especializado ou responsabilização dos agressores. O trabalho atua em uma etapa anterior, a da formação e da prevenção.

“É assim que acreditamos que o esporte pode fazer parte da prevenção da violência: não apenas condenando a agressão depois que ela acontece, mas ajudando a formar, desde a infância, pessoas que aprendam outras maneiras de lidar com suas emoções e seus conflitos”, conclui Joaquim.

O futebol ocupa um espaço privilegiado na vida de milhões de brasileiros. Mobiliza famílias, cria referências e influencia comportamentos. Essa força também traz responsabilidade. Clubes, atletas, treinadores e escolas podem ajudar a questionar a ideia de que agressividade é demonstração de força. Podem ensinar que perder faz parte do jogo, que frustração não autoriza violência e que respeito não vale apenas durante os 90 minutos.

Se os dias de partidas representam um período de maior risco para as mulheres, a resposta do futebol não pode começar somente depois do apito. Ela precisa estar presente em cada treino, conversa e exemplo oferecido às novas gerações.

Como pedir ajuda
Mulheres em situação de violência podem buscar orientação e fazer denúncias pelo Ligue 180. Em casos de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.E quando eu falo desse trabalho psicossocial, não é algo que fica somente na teoria. Nós criamos experiências práticas para que a criança e a família vivenciem aquilo que queremos ensinar.

Temos, por exemplo, uma dinâmica em que pais e filhos ficam 40 segundos abraçados. Parece algo extremamente simples, mas quantas famílias passam dias sem parar, olhar uma para a outra e ter um momento verdadeiro de conexão?

Temos também o V0, uma dinâmica de comunicação e conexão pelo olhar. Pai e filho ficam olho no olho, existe validação, reconhecimento, elogio. Em alguns momentos, eles falam aquilo que admiram um no outro, reconhecem qualidades e profetizam coisas boas sobre a vida um do outro.

E fazemos diferentes ativações ao longo das aulas. Algumas acontecem entre os próprios alunos; outras envolvem pais e filhos. O objetivo é trabalhar vínculo, empatia, reconhecimento, respeito, comunicação e conexão emocional.

Isso é muito poderoso porque estamos ensinando a criança não apenas a controlar um comportamento negativo, mas também a construir comportamentos positivos.

O contato afetivo, o abraço, o reconhecimento e as interações sociais positivas podem estimular respostas no organismo associadas à ocitocina, ao sistema de recompensa e à sensação de vínculo e bem-estar. Mas, para nós, mais importante do que falar do hormônio isoladamente é entender o comportamento que estamos fortalecendo: uma criança que aprende a olhar nos olhos, reconhecer o outro, expressar afeto, receber um elogio, elogiar, respeitar e falar sobre suas emoções está desenvolvendo ferramentas para lidar melhor com seus conflitos.

E aí entra uma questão que considero central nessa discussão sobre violência: não basta dizer para um menino “não seja agressivo”. Precisamos ensinar o que ele pode fazer no lugar da agressão.

Como ele comunica a raiva? Como lida com uma frustração? Como reage quando alguém diz não? Como demonstra carinho? Como pede desculpas? Como reconhece o outro? Como resolve um conflito sem usar força ou violência?

Isso também se aprende.

Quando colocamos pai e filho frente a frente, olho no olho, quando fazemos com que eles se abracem, se reconheçam e expressem aquilo que muitas vezes não conseguem falar dentro de casa, nós estamos usando o futebol como uma porta de entrada para fortalecer relações familiares.

E talvez esteja aí uma das maiores oportunidades que uma escola de futebol possui: não impactar somente a criança que está dentro do campo, mas também a família que está do lado de fora.

Porque uma criança emocionalmente mais preparada influencia sua casa. Um pai que passa a refletir sobre o próprio comportamento influencia seu filho. E uma família que aprende novas formas de comunicação e resolução de conflitos tem mais ferramentas para construir relações baseadas em respeito, diálogo e afeto.

É assim que acreditamos que o esporte pode fazer parte da prevenção da violência: não apenas condenando a agressão depois que ela acontece, mas ajudando a formar, desde a infância, pessoas que aprendam outras maneiras de lidar com suas emoções e seus conflitos. Por podcast edinhotaon/ Edno Mariano

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