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Cultura

Belo Monte, a pólis sertaneja

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             * por Aleilton Fonseca 

Belo Monte (1893-1897) pode ser visto como um projeto humanista, civilizatório e emancipador.

O trabalho social de Antônio Conselheiro é notável. Ele pode ser considerado precursor de políticas sociais de iniciativa não governamental, em favor do povo brasileiro do sertão. Após aprender com o Padre Ibiapina, no interior do Ceará, ele introduziu ações efetivas de assistência social no sertão baiano. Reuniu e organizou famílias abandonadas à própria sorte, em meio às secas, à fome, e à brutal exploração semiescrava do latifúndio. Ele ia de vila em vila, pregando e acolhendo homens e mulheres, crianças e idosos, pobres e deserdados, e organizou uma força de trabalho coletiva, capaz de gerar seu sustento, sem precisar saquear os povoados, como antes faziam diversos grupos de pessoas indigentes, sempre vigiados e perseguidos pelas polícias volantes. Como bom Conselheiro, o peregrino Antônio Vicente Maciel conduzia o povo para a oração, o trabalho, a vida ordeira dos humildes.

Em face da negação de espaço político para o povo, Conselheiro criou um espaço político alternativo e popular. Ao fundar Belo Monte, criou uma pólis sertaneja, empregando o discurso religioso como instrumento de união e de formação comunitária. Em sua comunidade havia uma organização social, uma economia solidária, um sistema de segurança, um código de costumes e sociabilidade. Ou seja, Conselheiro desenvolvia em Belo Monte um projeto verdadeiramente civilizatório, baseado em religião como ética existencial, trabalho como objetivo de vida, educação comunitária e convivência social solidária. Belo Monte era terra de trabalho, promissão e romaria. Pode ser considerado o primeiro assentamento de sem-terras neste país. Sem dúvida, Belo Monte foi um projeto comunitário de cidadania sertaneja, ainda hoje exemplar para o Brasil.

  • Professor, escritor, ensaísta, conferencista, poeta, membro das Academias de Letras de Ilhéus e de Itabuna, e atual presidente da Academia de Letras da Bahia, em Salvador

Ilustração: obra de Silvio Jessé

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