Brasil
PATRIMÔNIO DO RIO| Solidariedade: Ação da cidadania é reconhecida como patrimônio cultural imaterial do estado do Rio
Uma das organizações sociais mais emblemáticas da história recente do Brasil acaba de receber um reconhecimento oficial por sua contribuição à sociedade.A associação Comitê Rio da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida foi declarada Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Rio de Janeiro por meio da Lei nº 11.222, sancionada em 10 de junho de 2026 e publicada no Diário Oficial nesta quinta-feira (11).
A medida representa não apenas uma homenagem à entidade, mas também o reconhecimento da importância histórica de um movimento que mobilizou milhões de brasileiros em torno de uma das causas mais urgentes do país: o combate à fome.
Uma história que nasceu da indignação
A Ação da Cidadania foi criada em abril de 1993 pelo sociólogo e ativista brasileiro Herbert José de Souza, o Betinho, uma das figuras mais importantes da luta pelos direitos humanos e pela justiça social no Brasil.
Na época, o país enfrentava uma grave crise econômica e social. Dados apontavam que cerca de 32 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza. Diante desse cenário, Betinho lançou a campanha “Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida”, convocando a população, empresas, sindicatos, igrejas, artistas e organizações civis para uma grande mobilização nacional.
O movimento rapidamente ganhou força em todo o território brasileiro. Em poucos meses, milhares de comitês comunitários foram criados em diferentes cidades, promovendo arrecadações de alimentos, roupas e recursos para famílias em situação de vulnerabilidade.
Foi desse movimento que surgiu uma das frases mais marcantes da história social do país:
“Quem tem fome, tem pressa.”
O lema tornou-se um símbolo da urgência do combate à desigualdade social e segue atual mais de três décadas depois.
Reconhecimento da solidariedade como patrimônio cultural
A nova legislação estadual não reconhece um prédio ou um espaço físico, mas sim as práticas, os conhecimentos e as formas de mobilização desenvolvidas pela entidade ao longo de sua trajetória.
O conceito de patrimônio cultural imaterial busca preservar elementos que fazem parte da identidade coletiva de uma sociedade, como tradições, saberes populares, manifestações culturais, celebrações e práticas sociais.
Ao conceder esse título à Ação da Cidadania, o Estado do Rio reconhece oficialmente que a cultura da solidariedade construída pela organização possui valor histórico, social e simbólico para a população fluminense.
Segundo o texto da lei, o reconhecimento abrange especificamente as práticas de mobilização solidária promovidas pela instituição, reforçando seu papel como referência nacional na luta contra a fome e a exclusão social.
Atuação que atravessa gerações
Ao longo de seus mais de 30 anos de existência, a Ação da Cidadania participou de diversas campanhas humanitárias em momentos de crise.
A entidade esteve presente em ações de assistência durante enchentes, deslizamentos, secas prolongadas, crises econômicas e, mais recentemente, durante a pandemia da Covid-19, quando milhões de brasileiros passaram a enfrentar dificuldades para garantir alimentação básica.
Somente durante o período mais crítico da pandemia, a organização coordenou uma das maiores campanhas de arrecadação de alimentos da história recente do país, beneficiando milhares de famílias em todas as regiões brasileiras.
Além da distribuição de cestas básicas, a instituição também atua na articulação de políticas públicas, no fortalecimento de redes comunitárias e na promoção da segurança alimentar.
Legado de Betinho continua vivo
Embora Betinho tenha falecido em 1997, vítima de complicações relacionadas à AIDS, seu legado permanece vivo através das ações da entidade.
Reconhecido internacionalmente por sua atuação em defesa dos direitos humanos, o sociólogo transformou o combate à fome em uma pauta nacional, contribuindo para que a sociedade brasileira passasse a enxergar a alimentação como um direito fundamental e não apenas como uma questão assistencial.
Sua atuação ajudou a consolidar debates que, anos mais tarde, influenciariam programas de combate à pobreza e à insegurança alimentar em diferentes níveis de governo.
Importância para o Rio de Janeiro
O reconhecimento da Ação da Cidadania como Patrimônio Cultural Imaterial reforça o papel histórico do Rio de Janeiro como berço de importantes movimentos sociais brasileiros.
A iniciativa valoriza uma trajetória construída por milhares de voluntários, lideranças comunitárias e cidadãos que, ao longo de décadas, transformaram a solidariedade em uma ferramenta concreta de combate às desigualdades.
A legislação também esclarece que o título concedido à entidade não impõe qualquer restrição ao imóvel onde ela funciona, limitando-se ao reconhecimento das práticas sociais desenvolvidas pela organização.
Mais do que uma homenagem institucional, a nova lei eterniza como patrimônio do povo fluminense uma das maiores correntes de solidariedade já organizadas no Brasil, reafirmando a importância da participação cidadã na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e humana. Por podcast edinhotaon/ Edno Mariano
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