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França: 100 anos da Avenue de Champagne, em Épernay
- Christine Ranunkel, de Paris
Ninguém contesta que Épernay, no nordeste da França, seja a capital da Champagne. Desde o início do século XVII, as casas de champagne se instalaram fora das muralhas da cidade, ao longo do Faubourg de la Folie. Progressivamente, a expansão urbana integrou essa artéria que, em 1925, tornou-se a Avenue de Champagne, logo apelidada de “os
Champs-Élysées do Champagne”.
Bordada por hotéis particulares (mansões) e castelos, abrigando as marcas de champagne mais
prestigiosas, a Avenue de Champagne celebra hoje seu centenário; percorrê-la é entrar em
um mundo encantado de bolhas… Não é de surpreender, sabendo que se estima que cerca
de 200 milhões de garrafas repousam nas caves que se estendem sob a avenida.
Ao longo de todo o ano, a avenida vive ao ritmo das festividades: os “jantares em branco”,
no início do verão, a magia do Natal em dezembro. Para celebrar este aniversário, a cidade
de Épernay organizou uma exposição festiva e jubilosa no Museu do Vinho de Champagne e
de Arqueologia Regional, intitulada: “E de repente, o champagne!”
É a ocasião de explorar as dinâmicas sociais e culturais que fizeram do Champagne um dos
pilares da arte de viver à francesa. Ali podem ser descobertos 250 objetos e obras de arte —
emprestados por museus e casas de champagne — que ilustram toda uma sociabilidade
refinada que se fortalece e se constrói em torno do vinho efervescente.
Das origens ao nascimento da efervescência
Desde o século III, vinhas são cultivadas nos solos calcários da região; os domínios
vitivinícolas eram então explorados por bispados e abadias. A Champagne produzia, na
época, um vinho “tranquilo”.
A efervescência só surge no século XVII, quando o vinho passa a ser engarrafado em vez de
armazenado em barris. Ele fermenta, borbulha… uma revolução está em marcha. O monge beneditino Dom Pérignon é uma das figuras-chave desse período. Visionário, ele mandou escavar caves adequadas ao envelhecimento dos vinhos e aperfeiçoou as técnicas de prensagem.
Tornando-se famoso além dos muros de seu convento, revelou as qualidades de um excelente viticultor e habilidoso comerciante, contribuindo duradouramente para a reputação do champagne. Ainda hoje, as cuvées da célebre Maison Dom Pérignon permanecem míticas.
Foi na década de 1660 que os aristocratas ingleses descobriram e exaltaram os vinhos
espumantes da Champagne. Eles conquistaram as mesas principescas europeias,
participando do brilho e da influência da França.
O champagne, arte da festa e objeto de criação
A partir de então, o serviço do champagne nunca deixou de inspirar as maiores manufaturas
de vidro e cristal, como Baccarat, Lalique, Saint-Louis…Elas competiam em inventividade
para criar todos os acessórios que embelezariam o serviço dessa preciosa bebida: baldes de
gelo, taças e flautas adornadas com os brasões das diferentes casas. Desenvolveu-se assim
uma verdadeira arte de receber em torno desse vinho excepcional.
O imaginário do champagne
No final do século XIX, o cartaz e a publicidade conheceram um extraordinário crescimento,
acompanhando o desenvolvimento das marcas, do lazer e do estilo de vida. É a arte da
celebração sob todas as suas formas, à qual o champagne estará sempre associado!
Museu do Vinho de Champagne e de Arqueologia Regional
13, Avenue de Champagne
51200 Épernay
O champagne, vinho de todas as celebrações!
Mas, para além dessas casas de renome internacional, existe o universo dos numerosos
produtores — muitas vezes também casas familiares — que perpetuam seu saber-fazer de
geração em geração.
Comprometidos com a excelência, elaboram cuvées de qualidade notável. Em degustações
“às cegas”, seus champagnes frequentemente rivalizam com os das maiores marcas
internacionais, para grande orgulho deles.
Recentemente, participei de dois almoços nos quais tive a oportunidade de conhecer
algumas dessas casas de champagne, que vieram demonstrar que o champagne pode
acompanhar, com elegância, uma refeição do início ao fim, desde que a harmonização seja
cuidadosamente pensada.
Estávamos no restaurante L’Arpège, no 7º arrondissement/distrito de Paris. Sob a direção de Alain
Passard, o estabelecimento passou a dar um lugar central a legumes e frutas, até propor,
desde julho passado, uma cozinha exclusivamente vegetariana: legumes de suas hortas,
frutas de seus pomares e o mel de suas colmeias compõem agora a única partitura deste
grande chef. Os champagnes da maison Champagne Lombard, assim como os da Champagne Vignon,
acompanharam esse almoço com precisão e sutileza.
Outro almoço memorável ocorreu no restaurante Le Pergolèse, no 16º arrondissement/distrito. A
cozinha inventiva de Julien Dumas harmonizava maravilhosamente com os champagnes da
Champagne Philippe Gonet e da Champagne Jeaunaux-Robin.
Se essas casas não estão estabelecidas na Avenue de Champagne, ainda assim privilegiam a
excelência. Instaladas em seus próprios “terroirs”, acompanham cada etapa com vigilância constante,
convencidas de que a qualidade permanece a assinatura mais segura.
- Jornalista francesa, membro e presidente de honra da APE – Association de la Presse Étrangère/Associação da Imprensa Estrangeira da França.
Foto (divulgação): Épernay é a capital do champagne na região de Champagne, situada no nordeste da França